Uma libélula ou outra
Uma crônica revisitada e uma reflexão sobre fotografia
Esta semana, a edição deste cruzamento de newsletter com blog é bastante breve e traz uma crônica reempacotada ou revisitada.
Ela foi publicada em janeiro de 2025 na coluna que escrevo aos sábados no Globo. Outro dia, em visita a um canal esportivo, esbarrei na foto de Felipe Medina tirada por Jerome Brouillet em 2024. Esta lá, imensa, fixada numa parede, uma memória, uma história sendo contada - e esse breve encontro acabou gerando uma conversa sobre a importância que a fotografia nesse mundo tão fragmentado. Que história uma imagem conta? Quantas emoções ela transmite e revive?
Por conta disso achei que valia a pena trazer a crônica para cá e promover sua reencarnação digital. Nesse mundo em que capturamos imagens com facilidade antes impensada e produzimos e alteramos imagens com rapidez, qual a relevância de um instante capturado? De um tempo sem tempo - parado. E qual a importância desse nosso exótico filtro - o olhar humano?
Da arte de fotografar libélulas
Passei minha última semana de férias em Minas Gerais observando libélulas — ou uma libélula em particular — num lago em forma de rio. Um pequeno inseto de 9 cm que pousava e decolava na margem das águas. Um pé humano se aproximava e ela subia, sumia. E reaparecia. Me agachei para tentar fotografá-la com o celular. Mas ela era rápida demais. Mal dava para saber se era roxo ou verde aquele traço delgado em forma de corpo.
Fotografar libélulas não é ofício simples. Elas batem as asas a 50 metros por segundo — muito acima de nossa capacidade visual de captura. Vemos um vago borrão. Num literal piscar de olhos elas zunem e somem. Estão ali — de repente não estão. Aparecem na margem. Desaparecem. Minhas tentativas de foco foram todas em vão.
Pensei no princípio da incerteza, nas limitações humanas e em Jerome Brouillet. O leitor pode não se lembrar do nome, mas provavelmente se lembra da foto que ele tirou em 2024.
No surfe dos Jogos Olímpicos, Gabriel Medina surfou um tubo tão perfeito que terminou a onda numa decolagem eufórica. Muitos capturaram a cena — o vídeo rodou o mundo. Mas ninguém frisou a realidade como o francês Brouillet. Sua foto ganhou capa imediata em sites, jornais e revistas. Rodou em televisões, redes sociais, celulares, virou quadro impressionista, até tatuagem. Foi o ouro olímpico fotográfico. Justos louros. Neste mundo líquido e fragmentado, a grande história contida em uma imagem vira uma força da natureza
Aquela foto falava. Ou gritava. Brouillet capturou sua libélula. E que libélula. Dez anos atrás, a jornalista Dorrit Harazim, que ilumina a página 3 deste periódico aos domingos, publicou “O Instante Certo” — um livro sobre fotografia, ou sobre as histórias por trás de alguns históricos registros fotográficos. O primeiro texto do livro começa assim:
“De efeito quase hipnótico, a imagem de beleza perturbadora exige mais do que mera contemplação. Quem a vê pela primeira vez é compelido a escrutinar cada detalhe, decifrar o oculto por trás do enquadramento perfeito”
Dorrit estava descrevendo uma foto de 1947, de uma moça que se jogou do então prédio mais alto do mundo (o Empire State) e caiu no teto de um carro, tirada pelo estudante de fotografia Robert C. Wiles. Talvez soe mórbido — mas essa breve introdução passou a me acompanhar sempre que esbarro numa foto magnífica — e foi especificamente dela que lembrei ao ver pela primeira vez a foto de Medina.
Medina estava ali numa impossibilidade — voava parado, horizontalmente ereto acima das ondas, braço erguido, dedo em riste, pisando no ar e nas nuvens, conectado por um fio ao aparelho de seu ofício, a prancha — também ereta como um eco. Uma imagem de perturbadora beleza e congelada juventude.
A grande foto pode ser silêncio em forma de estrondo. Ou estrondo em forma de silêncio. Num mundo de vídeos, sons e tanto movimento, a fotografia sobrevive por sua capacidade de contar histórias além das palavras. A inteligência artificial se aproxima e pode tudo mudar. Enquanto aguardamos essa marcha, ainda podemos admirar essa arte — essa nobre arte — de capturar uma libélula, de reter o presente fugidio, de enquadrar quase materialmente um instante.




