Mando de campo
Globo e Cazé TV vão disputar a audiência na Copa do Mundo. Mas essa briga não é só delas - e sobretudo não é só pela audiência
👽 Esse artigo é o primeiro de uma série sobre a transformação provocada pela revolução digital na mídia esportiva brasileira.
A Copa de 2026 vai marcar uma mudança significativa no jeito brasileiro de consumir futebol. Pela primeira vez desde 1994, a TV aberta não mostrará todos os jogos de uma Copa do Mundo*. E pela primeira vez, desde 1998, a Globo não mostrará ao vivo a íntegra do torneio*. Só a Cazé TV exibirá todos os 104 jogos de 2026 através de seu canal no Youtube. Sendo didático: todas as partidas estarão disponíveis de graça – mas metade delas apenas através de smartvs e smartphones.
Além de mais de 30 jogos exclusivos na primeira fase, a Cazé TV mostrará sozinha 15 mata-matas: oito 16as, quatro oitavas, duas quartas e uma semifinal só estarão disponíveis no canal. É uma imensa quebra de paradigma. Neste milênio, com a exceção das Olimpíadas de 2012 (na Record), nunca um outro veículo teve uma oferta maior e melhor do que a Globo num evento de impacto mundial.
Muitas vezes a emissora passou menos do que poderia na TV aberta por opção de grade. Ou de valorização de seu canal pago (o Sportv). Desta vez, a Globo transmitirá até 55 jogos em seus múltiplos canais num pacote que inclui todas as partidas da Seleção Brasileira. Mas também aí haverá concorrência, não apenas da Cazé – mas também do SBT (e seu parceiro NSports) com as vozes de Galvão Bueno e Tiago Leifert.
Por mais que as manchetes sejam sobre a “guerra” entre Globo e Cazé TV – a mudança mais relevante não é a rivalidade entre produtores (ou empacotadores) de conteúdo. Essa é a faceta divertida e superficial. O tremor estrutural está na outra ponta da equação — na distribuição e nos novos intermediários que reconfiguraram a relação entre consumidores e anunciantes. É ali que o grande vencedor dessa escaramuça – o Youtube – se posicionou. É ali que o conflito global por atenção se ensaia.
Há algum tempo as Big Techs (Google, dono do Youtube; Apple, Meta e Amazon) entraram nesse gramado. No Brasil, Google e Meta já são protagonistas no mercado publicitário. Amazon, Tiktok, Netflix e X (menos) também se engraçam. E, com o boom de inteligência artificial, tem mais gente querendo entrar no campo da intermediação (OpenAI, Anthropic).
A Globo se tornou hegemônica no Brasil por conta do padrão de qualidade e, sobretudo, por sua fantástica rede de distribuição. Mas esse diferencial, aos poucos, está se diluindo. Segundo uma pesquisa do IBGE (de 2025), quase todos os brasileiros (98,8%) já acessam a internet pelo celular. Mais da metade já acessa pela TV (53,5%). E Copa é justamente o evento que acelera a renovação do parque televisivo.
Durante décadas, comprar a Copa na Globo significou adquirir a atenção empacotada do brasileiro. Hoje Youtube e Netflix já vendem alcance, sem trocadilho, global. Entender os movimentos no exterior nos ajuda a vislumbrar o que pode ocorrer aqui. Não por acaso, marcas mundiais escolheram se renovar com documentários (F1 com Drive to Survive, NBA, COI, All or nothing etc). Não por acaso, a NFL fechou acordos com streamers, botou seu pacote premium no Youtube americano e fez a série Quarterback em parceria com o Netflix.
O esporte tem a capacidade preciosa de oferecer drama em tempo real. De gerar histórias capazes de entreter e emocionar. De mobilizar comunidades, alterar hábitos, mover países, misturar e exportar culturas. De juntar paixão tribal com imprevisibilidade. O drama do seu time ao vivo tende a se tornar uma terra rara no mundo da inteligência generativa. A distância entre ideia e criação audiovisual se reduz cada vez mais. A nova escassez será daquilo que não pode ser recriado ou simulado. Ou revivido. Uma das fotos mais marcantes que já vi foi de um menino na África, sem camisa, com um 9 e um “Ronaldo” escritos nas costas à caneta.
Quanto vale essa atenção? Quanto vale entender esse olhar? Esse é o jogo que já começou a ser jogado. Não mais para capturar o consumidor por algumas horas. Mas para conhecê-lo, entender seus hábitos e construir pertencimento.
Em outras palavras – você pode assistir a um jogo do Brasileirão na GE TV e na Cazé TV. Você assina os dois canais. Mas quem processa e monetiza seus dados é o Google. Você se loga no Google. O algoritmo que sua audiência treina... é do Google. E por mais que o Youtube compartilhe alguns dados e ferramentas comerciais com seus parceiros – a relação com o usuário... é dele.
Não por acaso, e também pensando na renovação do parque, as TVs aqui e além apostam no que batizaram de TV 3.0 (ou DTV+). É uma tentativa de retomar essa relação direta com o consumidor, oferecer segmentação publicitária e inserir a lógica de dados na TV aberta. Mas o desafio dessa tecnologia é grande - pois talvez presuma reeditar hábito. Antes ligávamos o aparelho e aparecia um canal. Hoje aparecem aplicativos.
Nos acostumamos com a lógica do celular. Youtube, Amazon, Apple, Meta, Tiktok, Netflix têm marcas globais e uma experiência fluida que transita entre todos os equipamentos possíveis. Usabilidade e conveniência importam. Quando colocam seus conteúdos no Youtube... Globo, SBT, Record e outras estão jogando no campo do adversário.
No fundo, a TV 3.0 é uma tentativa de retomar o mando de campo da sala - ou seja - ter algum controle sobre a interface. De voltar a ser o sistema operacional — e não apenas mais um aplicativo na tela inicial. Os fabricantes de TVs podem (ou poderiam) ser aliados. Mas eles têm seus próprios interesses: também querem controlar a primeira tela e comer uma fatia da torta de distribuição. Não tem mais bobo no futebol.
No Brasil, o alcance da TV aberta continua impressionante - e sua capacidade de atingir dezenas de milhões de pessoas ao mesmo tempo não chegou perto de ser igualada. Por isso, os números dos jogos exclusivos da Cazé em 2026, especialmente no mata-mata, terão significado peculiar.
Os próximos três anos mostrarão caminhos na mídia esportiva brasileira. Teremos outros dois megaeventos (Copa 2027 e Olimpíadas 2028) e um novo ciclo de renovação do Brasileirão.
A Copa agora é, digamos, o primeiro round. Vamos continuar falando dele na segunda parte dessa série - que começará explicando as origens do cometa que invadiu esse sistema.
👽 Na próxima semana - a segunda parte da série: A tempestade perfeita da Cazé TV





Espetacular e triste pq o Feed se tornou uma máquina de afeto nociva à saúde
Ótimo artigo. A concorrência entre a GLOBO e a CAZE TV faz bem para todos.
A concorrência sempre é algo positivo.